Desfaço os nós que deram em meus braços porque as letras estão pingando dos meus dedos. Elas são mais rápidas que minha voz. Me desprendo. Me solto. E junto as mãos. Parece um gesto de súplica ao Universo, como quem pede: - passa logo, mundo pequeno. Minha Terra é imensidão. As letras se juntam neste gesto de mãos postas. Meus braços se voltam ao meu redor, como se fosse eu, o seu mundo. Meu abraço não sabe ser sozinho. Letras e mais letras, e em minha volta, como quem me afaga, estão elas - as palavras. Parece um abraço de versos. Porque eu invento o que me falta. E eu nunca soube viver sem abraço. Sem letras. Sem versos. E o meu reverso é só poesia. Rima corrida, com pressa de viver. Letras loucas, andantes, que saem em busca de abraçar você. Porque minhas palavras também não sabem viver sem gente. Precisam de lugar. E o lugar que elas prosperam... É coração. Meu. Seu. De gente. Débora Andrade
Tenho uma inclinação forte para a caridade. Desde criança. Não sei se é dom, carma ou, se é convivência com minha avó materna (falecida) e minha mãe. Desde criancinha eu assistia as duas tentando ajudar as pessoas, mesmo que elas estivessem, também, precisando de ajuda. Minha mãe, com 15 anos, pegou nos braços um menino recém-nascido, enrolado no vestido de sua mãe biológica que o deu por não ter condições de criar e, o adotou. Minha avó acabou tendo o papel de mãe, claro. A pirralha da minha mãe só tinha 15 anos. Mas, esta é outra história...
Já levei mendigo pra casa para almoçar na mesa com a minha família. Mais tarde descobri que era um golpista. Brincou com minha generosidade. Houve época que fui mais ingênua. Esta, por exemplo. Nesta mesma época, eu era enganada semanalmente por uma garotinha na Praça Saens Pena, no Rio. Ela usava a mesma conta de luz para pedir dinheiro. Eu dava. Não aguentava aqueles olhos tristes lacrimejando.
Ainda nesta época, na fila para doar sangue no HemoRio, uma senhora chegou contando uma história triste que havia sido assaltada e não tinha dinheiro para voltar para casa. Eu tinha na bolsa o riocard e 5 reais. E parece que eu tinha mais que ela. Dei os 5 reais. 1 minuto depois um senhor veio me dizer que ela fazia aquilo ali sempre. Com a mesma historinha.
Depois de tantos outros episódios parecidos, eu entendi que não mudaria nada em minha sociedade colocando bandaid nas feridas alheias. Que era preciso fazer mais. Doar cestas básicas, dar um dinheirinho aqui e outra ali, não mudaria muita coisa. Me deu vontade de fazer mais. Foi então que conheci a ONG Junior Achievement. Eles capacitavam pessoas simples em monitores de empreendedorismo e atuavam em escolas públicas no Rio de Janeiro. Fui dar aulas pela periferia do Rio. E notei que era este caminho, mesmo. Foi uma experiência que eu ganhei muito mais do que doei. Me somei àquelas vidas, fazendo diferença, mesmo que pequena, no cenário da vida delas e na minha.
Passado um tempo, quando eu estava Secretária de Cultura de Três Pontas, conheci uma moça chamada Rita Luz. Era psicóloga do presídio da cidade. Ela desenvolvia projetos maravilhosos e, quase sempre, nos solicitava apoio, o que me possibilitou a conhecer mais de perto e, consequentemente, seus projetos com os reeducandos (era assim que ela gostava que chamássemos) daquele presídio. Como eu a admirava!
Um dos projetos era desenvolvido pelo Oswaldo Duarte, músico e professor de artes. Ele regia um Coral e, também, dava aula de flauta. O outro era desenvolvido pela Marita Duarte, atriz e professora de Teatro, ela dava aulas de teatro. Um dia a Marita me convidou para ir a uma aula sua lá. Eu fui. E ali, na cela, entendi um tanto de coisa que eu não entenderia se tivesse continuado no meu lugar comum. Passado um tempo, a Rita me ligou e disse que gostaria muito de iniciar um projeto de aulas preparatórias para o ENEM PRISIONAL e se eu poderia ajudar. – Eu? Oi? Com presos? Criminosos? Há não muito tempo eu tinha perdido um primo assassinado e, sim, poderia me encontrar com o assassino dele lá. Dar aulas para ele? – Não, não. Vou querer é dar uns três socos e uns sete chutes. Me deixa aqui, dando aulas para as crianças, visitando os velhinhos da Vila, né? Já estou fazendo minha parte!
- Uai! E minha forte inclinação à caridade? Eu não queria mudar a realidade da minha sociedade? Não queria uma vida melhor para as pessoas, sem distinção? Que olhar de julgamento é este, Dona Débora?
Foi então, em meio a mil questionamentos meus, à mim mesma, que entendi que, se eu queria transformar alguma coisa, era ali. Junto aos renegados, aos excluídos, ao “lixo da sociedade” – como um deles um dia se referiu à si mesmo para mim.
- Oi, Rita. Então. Posso dar aulas de redação. Começamos por interpretação de texto. Pode ser?
Preparei-me psicologicamente, bem mais que didaticamente. Preparei a aula e levei “O Sal da Terra”, de Beto Guedes, para interpretarmos. Eu precisava de música ali. E acho que acertei, porque eles também precisavam. Quem não precisa?
Fui. Em uma cela grande, com quase 30 homens e, do lado de fora, dois policiais e um cachorro nos vigiando pelas grades. E me lembro como se fosse hoje a minha frase para eles: - Não estou aqui porque sou boazinha. Estou aqui porque penso no futuro dos seus filhos e dos meus filhos. E não há caminho para um futuro melhor que não seja a educação. Não me interessa os crimes que vocês cometeram. Me interessa que vocês tenham interesse em melhorar como cidadãos.
Não durou muito tempo. Foram, no máximo, 5 aulas. Um dos alunos não se comportou bem “extraclasse” e, todos eles foram punidos com a paralisação do projeto. Foi a experiência mais enriquecedora da minha vida. Eu me despi do preconceito, do olhar julgador, do medo e fui, talvez somente ali, caridosa de verdade. Porque é muito fácil ser bondosa com quem é bonzinho. Difícil mesmo é atuar junto da marginalidade, entendendo que eles precisam de ajuda, de bondade, de caridade. Mais difícil ainda é ter a consciência de quem ninguém é melhor que ninguém. E que se eu quero transformar alguma coisa, é ali, na causa da ferida.
Este episódio da Suzy e do Dráuzio me fez viver emoções muito distintas em dois momentos. O primeiro foi quando a sociedade parecia ter entendido aquele abraço. Fiquei feliz e esperançosa, pensando que as pessoas são capazes da generosidade e do não julgamento. Que esta onda de amor poderia transformar tanta gente para o bem! Li algumas comentários de pessoas dizendo que não se posicionavam porque não sabiam o crime que ela havia cometido e pensei – Oras, e o que isso, neste momento importa? Agora importa que ela estava ali há 8 anos sem um abraço. E ali mesmo previ que, algumas pessoas, para provarem suas razões, procurariam seus crimes, para apontá-la e dizer que ela merece mesmo estar ali sem abraços, sem amor, renegada pelo mundo.
Ontem à noite, sem provas concretas, vi várias publicações que acusavam Dráuzio e a Globo de hipocrisia. Dizendo que o crime de Suzy teria sido violentar e matar um menino de 9 anos. Claro que isso é chocante. MEU DEUS! Uma criança de nove anos! Esta família! E todas as outras que já sofreram com isso, eu queria, também, abraçar! Apagar um episódio deste para sempre! E impedir que isso aconteça outra vez com qualquer outra. É obvio que a emoção fala muito alto, nestas horas. A gente que é mãe, se coloca no lugar da outra mãe e dá mesmo vontade de matar quem fez mal à uma criança.
Mas, amores, Dráuzio não estava ali para saber nada sobre os crimes cometidos pelos detentos. O que, na verdade, ainda ninguém sabe, até então. Nada foi provado. Ainda não sabem se Rafael é Suzy. Dráuzio estava ali fazendo uma matéria sobre o abandono de trans e travestis no sistema carcerário. E o abraço, meus amigos, é um impulso humano, de quem, naquele instante, foi empático e sentiu que, era só aquilo que faria bem à Suzy. Creio que, da mesma forma que escolhi me vendar e enxergar ali o ser humano que precisava da minha ajuda, por 5 dias de aulas, Dráuzio deve ter feito pelos 30 anos que se dedicou como médico no sistema penitenciário.
Não posso crer que, todo este “cristianismo” pregado nas redes digitais, que nos julga “defensores de bandidos e assassinos”, seja o que Jesus, o mesmo das quebradas, que defendeu Maria Madalena, que perdoou seus próprios assassinos,quis ensinar um dia. Se apropriar da religião e do nome de Jesus para condenar um abraço? – Isso, sim... é hipocrisia
Letras saltam do meu peito para as pontas dos dedos.
Me escrevo. Reescrevo. Retoco, sem muita preocupação do fim, uma vírgula ou outra.
Tem uma mania de liberdade dentro de mim que pulsa e rasga meus nós.
Reinvento meu espaço na finalidade do ser. Mas, sou só verbo infinitivo conjugado por um sujeito indeterminado que nem sei se sou eu o que quero ser.
Quero ser letra. As que saltam do meu peito e meus dedos rimam os versos. Um poesia nada concreta, marginal, além dos limites que posso ser.
Quero ser mais um tanto de mim. Desta alegria que me sobra. Destes sonhos que me transbordam.
Quero ser sujeito composto, elíptico, oculto, subentendido. Um tanto de coisa nenhuma que não pesa, passa, mas faz cócegas. É feito entardecer que ainda brilha luz, mesmo cansado.
Vou suspirando poesia e transpirando os versos que me fiz. Tatuando pelo mundo um pouco deste tanto que quero ser.
"Venha o vento que vier e se virar, nada" Esta frase é de uma canção do Grupo Rubel. Hoje, ao retornar minhas letras, me deparei com ela. Visitar minhas letras é o mesmo que me visitar. Às vezes, caminho distante e ainda não me vejo. Nem mesmo de longe. Mas, quando há este exercício de me ler, eu me retorno à mim e me retomo. Este gosto de ser minha. Este vício de ser dona de qualquer coisa de mim. E hoje eu me lembrei que eu sempre fui de me virar. Vindo qualquer vento. E que as tempestades, embora me tirassem a direção, sempre me fizeram voar. É porque nunca tinha medo. Me esqueci do nunca. E hoje, paralisada, ouvindo a música pela nona vez, pedi perdão à mim. Passarinho no ninho. Apreciando o céu que é seu. Fazendo poesia sem rima de uma vida de versos assimétricos e canção sem compasso. - Pode pular. Vai. Tuas asas nunca saíram do lugar. Pode voar. Débora Andrade
Feita por mãos vindas dos céus, em formas perfeitas, Tão deusa, quase santa, com dose doce de pecado entre curvas. É dona de pranto, de canto, tem manto, tem amor para cura.
Donas de sorrisos francos e risos cênicos, É poesia que emerge das pedras, É prosa que sucumbe as dores, Pinta arco íris em qualquer cinza com suas cores.
É silêncio. Destes que sabem invadir barulhos, rimando versos agudos. Corpo, misturado com alma, que repele o medo com sorriso e abraça o futuro no ventre. É quem vive, não só aguenta. Que tem a ternura nas mãos reticentes de arte. Dona dos mapas que a cabeça dança, pinga sorrisos e esbanja elegância.
Dona de um mundo que cabe no colo, no verso, na capa, no pão, nos olhos. Contorcionista das dificuldades, malabaristas das objeções. Maria, Ana, Rita, Joana... todas, tantas e muitas. Nenhuma igual a outra. Todas elas, gigantes. Mulheres. Deusas, não santas. Mulheres.
Retomei o caminho. Estou aqui. No abismo de mim.
Em silêncio, as palavras me cortam a pele, reescrevendo meu caminho torto de mil sonhos sobre asas e céus. É só para colocar um ponto final.
Regurgito as mentiras: - Meia dúzia de rimas velhas, algumas estrelas, algum verde e montanhas, um vasto céu, poucas borboletas, um sol e um arco íris, teu nome.
Ainda em silêncio, busco a paz de ser minha, outra vez.
Fecho os olhos e pulsa no peito a fé. Vejo caminho à frente, bem depois do ponto final. Há sempre um começo para todo fim.
Ainda na beira do abismo, olho pra cima e volto a ver uma imensidão azul celeste, levemente dourado, com raios de um Sol maior. E quando retomo, com humildade e contemplação o meu olhar pra baixo, enxergo o mar.
Eu sou porto, outra vez.
Já posso sair dali. E navegar na imensidão do amor que vive em mim.
Sem dores de ontem. Em par com o amanhã.
A um passo da sua mão. Pra navegarmos para o infinito e além.
A vida tem destas coisas
que nascem como amor e morrem como enganos. E quando é assim, antes de morrer,
parece que quebra tudo dentro da gente. Dilacera coração. Devasta o interior.
Degrada a alma. Feito tempestade que não
perdoa o chão. Tenho sete arcos íris. Só por isso.
Precisei morrer algumas
vezes pra nascer de novo.
Em pelo menos três,
nisso tudo, existia você. Entre as mortes e os arco íris. Estava você, que ainda não vi
morrer para renascer. E que precisava.
A primeira delas eu
estava grávida. Na contramão da física, fiquei opaca. Perdi o riso fácil. Tinha
vergonha das minhas faltas e angústias. Abandonei espelhos e fotografias. Não
reconhecia aquela imagem cinza e sem brilho que era meu reflexo. Lutei contra
aquela dor, sem saber se doía o abandono, as promessas descumpridas, ou... O
fato de estar vivendo o momento mais importante da minha vida, sem me permitir comemorar
a magia de ter vida em mim. Pior que morrer, é sentir vontade de morrer.
Eu lutei, antes de ir.
Agarrei-me às certezas que você me deu. Entre elas, a de que tudo iria terminar
bem. Em particular, alimentei outra, a de que brotava em mim o fruto de um grande
amor. O nosso. E por fim, me prendi à certeza do seu amor covarde. Que não teve
peito pra viver por nós. Que se escondeu, com medo de julgamentos e perdas sem
sentidos, enquanto eu lutava contra dor e solidão.
Eu sentia teu amor, mas,
vivi apenas o resultado da tua falta de coragem.
Sabia que um dia você se
daria conta de tudo isso, e correria pra mim, como em cena de filme romântico:
- numa praia ou no aeroporto, tendo como
fundo musical "Mesmo de Brincadeira", interpretada pelo
Emmerson Nogueira, bem como apreciávamos no seu carro enquanto estávamos na
estrada ou parados pra ver as estrelas e fazer nosso céu. E então, embora não
tenha acontecido nenhuma produção cinematográfica, você veio mesmo. Declarou-se
e, com os mesmos olhos sedentos de amor, me fez acreditar que era daquela vez.
Eu pulei do abismo. Sempre fui de acreditar em milagres. E foi a segunda vez
que morri.
Antes de partir,
agonizei no chão e, enquanto sangrava, eu via sua imagem lá em cima,
cabisbaixo, recolhendo as asas que te dei. Mais uma vez, você me deixou ir.
Renasci mais forte.
Carregando marcas e cicatrizes de uma crença que sobrevive em mim: O Amor. Não
me arrependi. É sublime viver isso. E me prova o quanto fui valente e vivi o que acreditava. Era real pra mim. Me orgulha a valentia e a mania de ter fé na vida.
Da última morte, você também
faz parte. Como se já não fosse o suficiente, meu amor lhe concedeu outra
chance. Era a nossa hora, meu coração sussurrava. E eu enxerguei, feito flor em jardim, a
coragem brotar nos seus olhos. Era a primeira vez que vi suas asas prontas ao voo.
Com seus passos de passarinho, te vi preparando para me entregar nosso céu. Sentíamos-nos
cúmplices. Intimidade, proximidade,
sonhos talhados, um a um, em união. Era mesmo o nosso tempo de voar.
E eu te amava inteiro. E
ainda mais, amava a valentia que nascia em detalhes.
Sujeitei-me à espera... Tornei-me
paciente e vibrava com cada pequeno passo teu. Eu te enxergava por dentro. Aceitava tuas
fraquezas e demoras. Acreditava em toda palavra... Enxergava verdade em todas
elas... E nos prometemos felicidade. Companheirismo. Lealdade. Alegria.
Nosso riso era fácil.
Nosso caminhar parecia em compasso. E, outra vez, ainda mais confiante que as
outras e tomada pelo amor que me movia, eu pulei. E então, do chão, enquanto
sangrava e chorava a traição, eu te via no alto. Ainda triste. Cabisbaixo. Tentando
se convencer que era o melhor pra você, enquanto perdia as asas. Enquanto se
despia da valentia. Não olhou pra baixo. Não me viu. Mais uma vez, me deixou
sem final. Eu renasceria outra vez.
Ainda estou morrendo. Amargando
na boca o engano. E lutando para salvar a fé no amor. O amor não tem culpa
nenhuma disso. Pareço ter perdido a consciência. Talvez, eu tenha me perdido.
Falei meia dúzia de palavrões. Nunca havia dito. E enquanto morro, salvo a imagem de alguém que
sempre defendeu o direito do outro tentar... e o meu de confiar em alguém. Vão
morrendo as lamentações. E já quase inexpressiva, desfaleço. E não te vejo mais.
Sinto chegar o arco íris. É dele que vou renascer. Todas as vezes que renasço,
sinto apertar no corpo uma alma grande de amor e fé. É bem assim que quero
seguir. Sem saber se o que me espera é terra ou céu.
No mais. Voltei a usar
minhas asas. Enquanto o universo me borda um novo amor, de olhar confiante e
asas fortes, com alma de passarinho. Mas, com coragem de leão faminto.
Os dias passaram e eu nem vi.
Noites mal dormidas, sem sonhos.
Os sonhos dormiram. E eu vi.
Dias perdidos de Sol. Sem sombras.
As flores nasceram azuis e eu não vi.
As lágrimas fugiram pra dentro de mim. Me partiram. Eu parti.
Não vi meus pedaços. Nem meu sangue. Eu não me vi.
Nasceram mil novas palavras e eu não escrevi.
Renasceu a palavra dor. E nunca morreu, o amor.
Doem as pontas dos dedos destas mãos que floresciam vida por ti.
Ferida alma, feito fera, revira o tempo de dentro.
Os olhos cegos pra dentro, já viram o milagre do sol às sete da noite.
Tinha luar nas quatro paredes do quarto. Tinha estrelas no teto do carro.
Era. Outra era. Era mesmo. Amor. Dentro. Em mim.
Fugi daqui de dentro, sem explicação. Só para não te encontrar outra vez.
Porque é em mim que te encontro.
Volto e revolto. Pairo nos ponteiros do relógio.
Me solto. Grito em silêncio.
Dói a falta. Dói o engano. Dói o tempo.
Morre a poesia.
"Eu sou maior do que era antes"
E as cores sempre voltam aos céus. E as flores não deixam de nascer.
E a vida insiste na poesia, enquanto as lamentações escrevem prosas num espaço escondido em mim.
Perde força a voz. Ganha espaço o silêncio. Numa luta que desbrava aqui no peito os caminhos de volta. Luta sem vencedor.
Fica tudo bem. Sempre fica.
A gente recolhe os sonhos e plastifica as histórias. O eterno nunca foi matéria. Abstração do mundo. O amor é.
Relembra, vez ou outra, o tamanho de um amor em rodeios. Parecia maior que eu. Parecia mais forte que nós. Mas, foi frágil. Deixou-se perder no ciclo covarde das convenções.
Amor. É imperioso. Soa gemido no vácuo da desilusão. Mas, retoma o caminho. Volta pra onde nasceu. Guarda voz e letras até o dia de nascer de novo.
É maior.
De perto e de longe. Dos passos largos e lentos, sondando em
si as possibilidades do sim e do não. Era uma estrada densa entre flores e
espinhos. Desconhecida. Vasta do poder de decisão. Amor fecundo no asfalto. Na
dor opaca do chão nascem as flores.
Do silêncio mudo de suas mãos, a reposta sempre estava no
barulho da alma. Era a imersão devastando as profundezas de si. Uma pitada de
coração em toda direção.
Cresceu. Evoluiu. E de onde posso ver, noto os passos ainda
largos e lentos, encorajados pelo impulso de ser seu. Abraçou-se. Percebeu o
poder dos braços. Entregou-se à sabedoria de viver passarinho abrindo as asas.
Frágil com seu corpo de papel de seda e taquara, ela voa
vaidosa, enfrentando as tempestades dos céus. Não empina com brisa.
Cresce e sobe para descobrir em cada vento contrário uma
oportunidade de voar mais.
Pinta os céus com suas cores e segue, dando
voltas suaves como se tivesse a sabedoria de ver lição nas dificuldades.
Ela baila pelos céus e conquista o azul, toca
as mãos do Sol e retorna. Se recolhe na aurora das tardes, longe das alturas e
contempla a terra. Amanhã sabe que o Sol lá, outra vez, estará. E volta a pipa,
nem sempre na mesma trajetória, mas sempre alegre e disposta a ganhar a
imensidão dos céus.
Deus dá às pipas um céu imenso só porque sabe
que existe nelas, mesmo com seu corpo frágil, a condição de conquistá-lo.
Esgotaram em mim todas as perguntas. Só tenho respostas. Minhas. Bem minhas. Mesmo que no momento me invada uma imensurável vontade de dividir e somar.
Existem perguntas que somem com o passar das respostas. Perde o tom da indagação tornando-se afirmações. É a prática do tempo. E o tempo... O tempo só sabe passar. Mesmo que eu peça ou implore, ou ainda que eu ore aos céus, o tempo só sabe passar.
E os nós atados não dissolvem as afirmações contidas na garganta. Tenho um nó na garganta e um laço no peito. Presa às afirmações que o tempo me dá e as rugas começam a me nortear. Amanhã ainda é amanhã. E lá, tão longe, não se realiza nada. Hoje. Este dia sim foi feito para isso. Para realizações. No amanhã moram os sonhos e no hoje, os planos em ação.
Tenho no meu peito um nó. Um laço em fita na boca, como quem a embrulha de presente ao beijo. É teu. Assim como o nó.
As palavras passam com as horas. As perguntas se tornam afirmações. Perdemos as respostas. Porque o nó é falta. Falta de nós.
Só tenho respostas. Sim, é uma delas. Mas, o tempo passa. Eu posso esperar. O tempo não.
Segundo Platão, dialética é a arte das perguntas e respostas.
Mais um setembro, entre as gotas de chuva e os pingos nos "is". Um ano que se passa trazendo outros tantos. Entre as nuvens, o Sol, quase tímido, me traz novas notas. A música me faz nascer como sua clave.
Expectativas acolhidas no corpo. Cada poro tem um tanto de esperança. Ainda há tempo. Sempre tem para o que há.
Entre os braços, novos tempos. O mesmo clichê delicioso bordando minha quase rotina de renascer.
Histórias. De todas as flores, a mais bonita brotou do meu ventre, permeando minha alma floreando um jardim. Ela floresce no meu colo. Me desperta sorrisos. Semente de mim.
Mais um ano. Novos tempos. Sonhos. Sempre terão. E a primavera que vivi, hoje está em mim.
Eu te encontrei pelo caminho mas, estava te esperando.Sempre te esperei. Te desvendei em mim. Nas minhas entranhas eu encontrei teu código. Te senti, não te recriei.
Te encontrei pronto. Tão imperfeito quanto eu. Do meu tamanho.
E nos olhamos além dos olhos. Avistamos nossas almas entrelaçando em nós.
O nosso beijo deixou o resto do mundo em silêncio e sob nossos pés.
Era um longo caminhar, sabíamos. Mas,parecíamos tão certos de nós. Dos laços.
Ao final, mais um entre tantos, restou a tinta na música. Um amor que sobrevive "in". De dentro para dentro. Sem exteriorizar em vida. Sem tornar o amor físico e palpável. Com todas as dificuldade que os "nós" sempre apresentaram ao mundo.
Frágil. Asfixiado e engasgado. Em tinta. Em notas musicais. Em poesia. Vivo nas veias. Sem tempo, sem espaço e sem coragem de ser.
Era para amanhã. Naquele nosso lugar por onde mais de mil vezes fizemos do nosso abraço o espaço mais aconchegante do mundo.
Não precisaríamos mais que o pôr do Sol e a música que existe em nós.
Era mesmo amanhã que, então, nossas mãos firmariam os laços que sempre existiram entre nossos corações. O Universo estava pronto para aplaudir o encontro dos nossos lábios numa profecia de beijo eterno. E então, tomaríamos o caminho de volta à nós. Passo a passo, compondo versos até findar a luz do dia, tendo na Lua nossa inspiração para novos amanhãs e outras poesias.
Era mesmo amanhã que nossos olhos, como tantas vezes, se esbarrariam na ternura dos nossos desejos confessando o quão é maravilhoso estarmos juntos. Sempre.
E, mesmo quando eu estivesse um passo a sua frente, eu só precisaria olhar para dentro de mim, aonde sempre me encontro com você.
Era. Amanhã. Mãos. Olhos. Beijos. Abraços. Versos. Poesias. Sol. Música. Sempre. Sol. Girassol. Nós. Inspiração. Amor. Amor outra vez. Amanhã. Outra vez, amanhã.
Era amanhã.
...das palavras presas em nós na garganta, o abraço fala pelos cotovelos e o vento sopra o medo para atrás dos montes. Somos tanto quando somos nós.
As mãos entrelaçadas dispensam o efeito das frases feitas ou de promessas vãs. Nossos corpos sempre falaram por nós.
Mas, ainda eles... atropelam a vida em poesia e explica, sempre em tom de despedida, a realidade imutável pela covardia. As festas e fogos que o peito proclama perdem razão. Nestas linhas de conto de fadas, você escreveu sobre amor e reencontros, findam na reticência desta eterna confusão de medo e indecisão. Um balão vazio que se acostumou ao discurso impotente de "não consigo".
Recolho minha coragem. Refaço minhas letras. Reintegro das minhas verdades, sem saber quais foram as tuas. Sedenta pelo ponto final que você nunca soube dar. Débora Andrade