Letras saltam do meu peito para as pontas dos dedos.
Me escrevo. Reescrevo. Retoco, sem muita preocupação do fim, uma vírgula ou outra.
Tem uma mania de liberdade dentro de mim que pulsa e rasga meus nós.
Reinvento meu espaço na finalidade do ser. Mas, sou só verbo infinitivo conjugado por um sujeito indeterminado que nem sei se sou eu o que quero ser.
Quero ser letra. As que saltam do meu peito e meus dedos rimam os versos. Um poesia nada concreta, marginal, além dos limites que posso ser.
Quero ser mais um tanto de mim. Desta alegria que me sobra. Destes sonhos que me transbordam.
Quero ser sujeito composto, elíptico, oculto, subentendido. Um tanto de coisa nenhuma que não pesa, passa, mas faz cócegas. É feito entardecer que ainda brilha luz, mesmo cansado.
Vou suspirando poesia e transpirando os versos que me fiz. Tatuando pelo mundo um pouco deste tanto que quero ser.
"Venha o vento que vier e se virar, nada" Esta frase é de uma canção do Grupo Rubel. Hoje, ao retornar minhas letras, me deparei com ela. Visitar minhas letras é o mesmo que me visitar. Às vezes, caminho distante e ainda não me vejo. Nem mesmo de longe. Mas, quando há este exercício de me ler, eu me retorno à mim e me retomo. Este gosto de ser minha. Este vício de ser dona de qualquer coisa de mim. E hoje eu me lembrei que eu sempre fui de me virar. Vindo qualquer vento. E que as tempestades, embora me tirassem a direção, sempre me fizeram voar. É porque nunca tinha medo. Me esqueci do nunca. E hoje, paralisada, ouvindo a música pela nona vez, pedi perdão à mim. Passarinho no ninho. Apreciando o céu que é seu. Fazendo poesia sem rima de uma vida de versos assimétricos e canção sem compasso. - Pode pular. Vai. Tuas asas nunca saíram do lugar. Pode voar. Débora Andrade
Feita por mãos vindas dos céus, em formas perfeitas, Tão deusa, quase santa, com dose doce de pecado entre curvas. É dona de pranto, de canto, tem manto, tem amor para cura.
Donas de sorrisos francos e risos cênicos, É poesia que emerge das pedras, É prosa que sucumbe as dores, Pinta arco íris em qualquer cinza com suas cores.
É silêncio. Destes que sabem invadir barulhos, rimando versos agudos. Corpo, misturado com alma, que repele o medo com sorriso e abraça o futuro no ventre. É quem vive, não só aguenta. Que tem a ternura nas mãos reticentes de arte. Dona dos mapas que a cabeça dança, pinga sorrisos e esbanja elegância.
Dona de um mundo que cabe no colo, no verso, na capa, no pão, nos olhos. Contorcionista das dificuldades, malabaristas das objeções. Maria, Ana, Rita, Joana... todas, tantas e muitas. Nenhuma igual a outra. Todas elas, gigantes. Mulheres. Deusas, não santas. Mulheres.
Retomei o caminho. Estou aqui. No abismo de mim.
Em silêncio, as palavras me cortam a pele, reescrevendo meu caminho torto de mil sonhos sobre asas e céus. É só para colocar um ponto final.
Regurgito as mentiras: - Meia dúzia de rimas velhas, algumas estrelas, algum verde e montanhas, um vasto céu, poucas borboletas, um sol e um arco íris, teu nome.
Ainda em silêncio, busco a paz de ser minha, outra vez.
Fecho os olhos e pulsa no peito a fé. Vejo caminho à frente, bem depois do ponto final. Há sempre um começo para todo fim.
Ainda na beira do abismo, olho pra cima e volto a ver uma imensidão azul celeste, levemente dourado, com raios de um Sol maior. E quando retomo, com humildade e contemplação o meu olhar pra baixo, enxergo o mar.
Eu sou porto, outra vez.
Já posso sair dali. E navegar na imensidão do amor que vive em mim.
Sem dores de ontem. Em par com o amanhã.
A um passo da sua mão. Pra navegarmos para o infinito e além.
A vida tem destas coisas
que nascem como amor e morrem como enganos. E quando é assim, antes de morrer,
parece que quebra tudo dentro da gente. Dilacera coração. Devasta o interior.
Degrada a alma. Feito tempestade que não
perdoa o chão. Tenho sete arcos íris. Só por isso.
Precisei morrer algumas
vezes pra nascer de novo.
Em pelo menos três,
nisso tudo, existia você. Entre as mortes e os arco íris. Estava você, que ainda não vi
morrer para renascer. E que precisava.
A primeira delas eu
estava grávida. Na contramão da física, fiquei opaca. Perdi o riso fácil. Tinha
vergonha das minhas faltas e angústias. Abandonei espelhos e fotografias. Não
reconhecia aquela imagem cinza e sem brilho que era meu reflexo. Lutei contra
aquela dor, sem saber se doía o abandono, as promessas descumpridas, ou... O
fato de estar vivendo o momento mais importante da minha vida, sem me permitir comemorar
a magia de ter vida em mim. Pior que morrer, é sentir vontade de morrer.
Eu lutei, antes de ir.
Agarrei-me às certezas que você me deu. Entre elas, a de que tudo iria terminar
bem. Em particular, alimentei outra, a de que brotava em mim o fruto de um grande
amor. O nosso. E por fim, me prendi à certeza do seu amor covarde. Que não teve
peito pra viver por nós. Que se escondeu, com medo de julgamentos e perdas sem
sentidos, enquanto eu lutava contra dor e solidão.
Eu sentia teu amor, mas,
vivi apenas o resultado da tua falta de coragem.
Sabia que um dia você se
daria conta de tudo isso, e correria pra mim, como em cena de filme romântico:
- numa praia ou no aeroporto, tendo como
fundo musical "Mesmo de Brincadeira", interpretada pelo
Emmerson Nogueira, bem como apreciávamos no seu carro enquanto estávamos na
estrada ou parados pra ver as estrelas e fazer nosso céu. E então, embora não
tenha acontecido nenhuma produção cinematográfica, você veio mesmo. Declarou-se
e, com os mesmos olhos sedentos de amor, me fez acreditar que era daquela vez.
Eu pulei do abismo. Sempre fui de acreditar em milagres. E foi a segunda vez
que morri.
Antes de partir,
agonizei no chão e, enquanto sangrava, eu via sua imagem lá em cima,
cabisbaixo, recolhendo as asas que te dei. Mais uma vez, você me deixou ir.
Renasci mais forte.
Carregando marcas e cicatrizes de uma crença que sobrevive em mim: O Amor. Não
me arrependi. É sublime viver isso. E me prova o quanto fui valente e vivi o que acreditava. Era real pra mim. Me orgulha a valentia e a mania de ter fé na vida.
Da última morte, você também
faz parte. Como se já não fosse o suficiente, meu amor lhe concedeu outra
chance. Era a nossa hora, meu coração sussurrava. E eu enxerguei, feito flor em jardim, a
coragem brotar nos seus olhos. Era a primeira vez que vi suas asas prontas ao voo.
Com seus passos de passarinho, te vi preparando para me entregar nosso céu. Sentíamos-nos
cúmplices. Intimidade, proximidade,
sonhos talhados, um a um, em união. Era mesmo o nosso tempo de voar.
E eu te amava inteiro. E
ainda mais, amava a valentia que nascia em detalhes.
Sujeitei-me à espera... Tornei-me
paciente e vibrava com cada pequeno passo teu. Eu te enxergava por dentro. Aceitava tuas
fraquezas e demoras. Acreditava em toda palavra... Enxergava verdade em todas
elas... E nos prometemos felicidade. Companheirismo. Lealdade. Alegria.
Nosso riso era fácil.
Nosso caminhar parecia em compasso. E, outra vez, ainda mais confiante que as
outras e tomada pelo amor que me movia, eu pulei. E então, do chão, enquanto
sangrava e chorava a traição, eu te via no alto. Ainda triste. Cabisbaixo. Tentando
se convencer que era o melhor pra você, enquanto perdia as asas. Enquanto se
despia da valentia. Não olhou pra baixo. Não me viu. Mais uma vez, me deixou
sem final. Eu renasceria outra vez.
Ainda estou morrendo. Amargando
na boca o engano. E lutando para salvar a fé no amor. O amor não tem culpa
nenhuma disso. Pareço ter perdido a consciência. Talvez, eu tenha me perdido.
Falei meia dúzia de palavrões. Nunca havia dito. E enquanto morro, salvo a imagem de alguém que
sempre defendeu o direito do outro tentar... e o meu de confiar em alguém. Vão
morrendo as lamentações. E já quase inexpressiva, desfaleço. E não te vejo mais.
Sinto chegar o arco íris. É dele que vou renascer. Todas as vezes que renasço,
sinto apertar no corpo uma alma grande de amor e fé. É bem assim que quero
seguir. Sem saber se o que me espera é terra ou céu.
No mais. Voltei a usar
minhas asas. Enquanto o universo me borda um novo amor, de olhar confiante e
asas fortes, com alma de passarinho. Mas, com coragem de leão faminto.